A obsessão de Matheus Cunha pela Seleção o levou à Copa do Mundo

A obsessão de Matheus Cunha pela Seleção o levou à Copa do Mundo

MORRISTOWN, NJ (EUA) – Poucos jogadores da Seleção Brasileira celebram um gol com tanta leveza quanto Matheus Cunha. Quando marca, sobe na prancha imaginária e faz o gesto que virou sua marca registrada, como se estivesse surfando uma onda perfeita. Mas a trajetória que levou o paraibano até a Copa do Mundo está longe de ter sido tranquila. Por trás do sorriso fácil existe uma história movida por insistência, distância, saudade e uma obsessão que acompanha o atacante desde a adolescência: vestir a camisa da Seleção Brasileira.

Natural de João Pessoa, na Paraíba, Matheus Cunha cresceu muito antes de sonhar com estádios lotados. A primeira disputa aconteceu dentro de casa. “A primeira bola que chutei não foi de futebol, mas de tênis”, relembra. O pai, Carmelo, nunca facilitava. A competitividade nasceu ali, entre brincadeiras familiares e tardes intermináveis na Praça São Gonçalo.

Foi também por influência do pai que o garoto entrou no futsal. Aprovado no Cabo Branco, iniciou uma trajetória que parecia destinada às quadras. O destino, porém, tinha outros planos. Ainda adolescente, deixou a Paraíba e se mudou para Curitiba para integrar as categorias de base do Coritiba. A mudança foi o primeiro grande sacrifício de uma carreira construída longe de casa.

A despedida do Brasil aconteceu mais cedo do que muitos imaginavam. Sem estrear profissionalmente por um grande clube brasileiro, Matheus foi vendido ao FC Sion, da Suíça, em 2017. Tinha apenas 18 anos. A experiência moldou não apenas o jogador, mas também o homem. Hoje, é um raro exemplo de atleta brasileiro poliglota: fala inglês, francês, alemão e espanhol, além de compreender italiano.

A relação de Matheus com a camisa amarela nunca foi protocolar. Convocado desde as categorias de base, tratava cada chamado como conquista pessoal. Disputou o Pré-Olímpico de 2020, na Colômbia, e lutou para estar nas Olimpíadas de Tóquio, onde foi campeão olímpico. Quem convive com ele garante que essa disposição para abrir mão do conforto em favor da Seleção é permanente.

Por isso, um dos momentos mais difíceis foi em 2022. Às vésperas da Copa do Mundo do Catar, a convocação final não trouxe seu nome. As imagens do atacante abatido repercutiram. Para alguém que sempre fez questão de atender aos chamados, ficar fora representou uma dor profunda. Era o sonho interrompido, mas não encerrado.

O futebol costuma recompensar quem insiste. Depois da passagem pelo Atlético de Madrid, Matheus reencontrou seu melhor futebol na Inglaterra. Evoluiu tecnicamente, ganhou protagonismo e se transformou em um dos atacantes mais completos da Europa. Destaque no esquema de Carlo Ancelotti, tornou-se um elemento tático capaz de conectar setores, pressionar e abrir espaços.

A recompensa definitiva chegou em 2026. Aos 27 anos, o garoto de João Pessoa finalmente desembarcou em sua primeira Copa do Mundo. Não como figurante, mas como protagonista. Cada gol carrega um significado especial: as partidas no corredor de casa, os jogos na praça, a saudade dos pais, a aventura na Suíça, os idiomas aprendidos, a dor da ausência em 2022 e a persistência em nunca desistir da Seleção.

A emoção da família é genuína. “Nós fomos premiados com dois gols dele, né? A emoção é tão grande que você não sabe se chora, você não sabe se ri”, disse o pai, Carmelo, após a vitória por 3 a 0 sobre o Haiti, pela segunda rodada do Grupo C. A frase ajuda a explicar quem é Matheus Cunha: um atacante moderno, poliglota, campeão olímpico, protagonista na Europa e peça importante da Seleção. Acima de tudo, um jogador que nunca tratou a camisa amarela como obrigação. Para ele, a Seleção sempre foi sonho. E sonhos, como as ondas que imita nas comemorações, são feitos para serem perseguidos até o fim.

— Lance do Jogo