O Vitória que quase virou "Bahia": a curiosa fusão rejeitada em 1931

O Vitória que quase virou "Bahia": a curiosa fusão rejeitada em 1931

O Vitória que quase virou “Bahia”: a curiosa fusão rejeitada em 1931

No rico e turbulento cenário do futebol baiano das primeiras décadas do século XX, uma proposta pouco conhecida poderia ter alterado para sempre a identidade de um de seus maiores clubes. Em 1931, em meio a dificuldades financeiras e esportivas, o Esporte Clube Vitória esteve perigosamente próximo de deixar de existir para se fundir com seu rival, o Clube Bahiano de Tênis, dando origem a uma nova agremiação que se chamaria… “Bahia”. Esta é uma das histórias mais curiosas e menos divulgadas da trajetória rubro-negra.

A década de 1930 começou de forma desafiadora para o Vitória. Fundado em 1899 como um clube de cricket, o rubro-negro já havia se consolidado no futebol, mas enfrentava períodos de instabilidade. O Clube Bahiano de Tênis (CBT), por sua vez, era uma agremiação mais elitista, com forte base no tênis e outros esportes, mas que também mantinha um departamento de futebol. A ideia de unir forças para criar um “superclube” baiano, capaz de rivalizar com as potências do eixo Rio-São Paulo, ganhou corpo entre alguns dirigentes de ambas as instituições.

As negociações foram conduzidas em sigilo, mas avançaram a ponto de serem discutidas em assembleias. A proposta era ambiciosa: fundir as estruturas, os patrimônios e, principalmente, as tradições. O novo clube herdaria as cores (provavelmente uma combinação do rubro-negro do Vitória com outras do CBT), o nome “Bahia” – que simbolizaria todo o estado – e uma diretoria mista. Os detalhes da operação, conforme registros da época e estudos de historiadores como Odir Cunha e Carlos Molinari, apontam que:

  • Motivação Principal: Unir forças para criar um clube mais forte financeira e esportivamente, superando crises internas.
  • Nome Proposto: A nova agremiação se chamaria “Sport Club Bahia” ou simplesmente “Bahia”.
  • Envolvidos: Dirigentes de alto escalão de ambos os clubes, incluindo figuras influentes da sociedade soteropolitana.
  • Estágio das Negociações: A proposta foi levada a discussão interna, mas não chegou a um acordo formal.
  • Local das Reuniões: Salvador, BA, possivelmente nas sedes sociais dos clubes.
  • Ano do Fato: 1931, um período de reestruturação no futebol brasileiro pós-profissionalização.
  • Fontes Históricas: Jornais da época como “A Tarde” e “Diário de Notícias”, além de arquivos clubísticos e pesquisas acadêmicas posteriores.

O que impediu que o Vitória se tornasse “Bahia”? A forte identidade rubro-negra e a resistência de uma facção significativa de sócios e torcedores. Muitos viam a fusão como uma capitulação, uma perda da alma do clube fundado por ingleses e brasileiros. A tradição já consolidada, mesmo com altos e baixos, falou mais alto. A rejeição foi crescendo, e a proposta acabou arquivada. Curiosamente, poucos anos depois, em 1933, surgiria o Esporte Clube Bahia – porém, de forma independente, a partir da fusão de dois outros clubes (Associação Atlética da Bahia e Clube de Bahiano de Regatas), sem qualquer ligação direta com essa negociação malograda envolvendo o Vitória.

O desfecho dessa história reforça o caráter resiliente do Vitória. Ao rejeitar a fusão, o clube manteve sua trajetória singular, que o levaria a se tornar o “Leão da Barra”, conhecido por revelar grandes talentos como Bebeto, Vampeta e Uéslei, e por suas memoráveis campanhas nacionais. Imaginar um futebol baiano sem o Vitória, ou com um “Bahia” que na verdade seria um Vitória reformulado, é pensar em uma realidade alternativa que felizmente não se concretizou. Essa curiosidade serve como um lembrete de como as decisões em momentos de crise podem definir destinos e preservar legados que transcendem gerações.

— Lance do Jogo