
O Vasco da Gama e a Primeira Grande Viagem Internacional de um Time Brasileiro
O Vasco da Gama e a Primeira Grande Viagem Internacional de um Time Brasileiro
No cenário do futebol brasileiro, o Vasco da Gama é reconhecido não apenas por seus títulos e ídolos, mas também por ser um clube pioneiro em diversos aspectos. Uma dessas histórias, pouco difundida, remonta ao ano de 1923 e marca um capítulo fundamental: a primeira grande excursão internacional de um time de futebol brasileiro. Enquanto o esporte ainda dava seus primeiros passos profissionais no país, o Vasco ousou cruzar o Atlântico, escrevendo uma página de coragem e visão que ajudaria a moldar o futebol nacional.
A viagem foi uma iniciativa ousada para a época. O futebol no Brasil era predominantemente amador e regional, com pouca ou nenhuma experiência contra equipes estrangeiras consolidadas. A excursão, que durou cerca de três meses, teve Portugal como destino principal. O elenco cruzista, liderado pelo presidente José Augusto Prestes, embarcou no navio inglês Highland Rover em 15 de agosto de 1923, rumo a Lisboa. A comitiva era formada por 18 jogadores, muitos dos quais eram operários e funcionários públicos que precisaram negociar licenças especiais de seus empregos para a aventura. A travessia do oceano, que levou semanas, foi por si só um feito de logística e resistência, com os atletas treinando no convés do navio sob condições precárias.
Ao desembarcar em Portugal, o Vasco enfrentou uma série de desafios. O estilo de jogo brasileiro, mais técnico e baseado em dribles, contrastava com o futebol europeu da época, mais físico e direto. Além disso, o clube não era uma potência nacional à época – havia conquistado o Campeonato Carioca de Aspirantes em 1922, mas ainda não tinha um título principal da elite. A excursão incluiu partidas contra clubes portugueses como o Benfica, o Sporting e o Belenenses, além de uma emblemática vitória por 3 a 2 sobre uma seleção de Lisboa. Os resultados esportivos foram modestos – algumas vitórias, empates e derrotas –, mas o legado foi imensurável. Os jogadores vascaínos foram os primeiros brasileiros a experimentar em campo as táticas e a intensidade do futebol europeu, trazendo lições valiosas sobre preparação física e organização tática que, posteriormente, influenciariam o desenvolvimento do esporte no Brasil.
Mais do que os placares, a viagem teve um impacto profundo na identidade do clube e no futebol brasileiro. O Vasco retornou ao Rio de Janeiro em novembro de 1923 não apenas com experiências futebolísticas, mas com um sentimento de modernidade e abertura ao mundo. Essa mentalidade pioneira se refletiria nos anos seguintes, quando o clube se tornaria um dos primeiros a incluir jogadores negros e de origem humilde em seu elenco principal, rompendo barreiras raciais no esporte carioca. A excursão também serviu como um marco simbólico, mostrando que times brasileiros poderiam competir no exterior e absorver conhecimentos que acelerariam a profissionalização do futebol no país. Em resumo, aquela jornada de 1923 foi muito mais que uma simples série de amistosos; foi um ato de coragem que projetou o Vasco – e, por extensão, o futebol brasileiro – para além das fronteiras nacionais, plantando a semente da internacionalização que se tornaria uma marca do esporte décadas depois.
— Lance do Jogo







