
O Fluminense e a Curiosa História do Uniforme que Virou Símbolo de Resistência
O Fluminense e a Curiosa História do Uniforme que Virou Símbolo de Resistência
No rico e colorido universo do futebol brasileiro, onde cada clube carrega sua identidade nas cores e símbolos, o Fluminense Football Club guarda uma das histórias mais peculiares e pouco conhecidas sobre a origem de um de seus uniformes mais icônicos. Mais do que uma simples camisa, a camisa grená, adotada como uniforme alternativo nas décadas de 1980 e 1990, nasceu de uma circunstância inusitada, marcada por restrições financeiras e uma criatividade improvisada que acabou por criar um símbolo duradouro para a torcida tricolor.
A história remonta ao final da década de 1970. O Fluminense, como muitos clubes, enfrentava dificuldades econômicas. Em 1979, o clube precisava de um uniforme reserva para ser utilizado em jogos onde seu tradicional conjunto tricolor (camisas verdes, calções brancos e meias grená) pudesse causar conflito de cores com o adversário. A solução encontrada pela diretoria, no entanto, foi surpreendentemente simples e econômica: ao invés de encomendar um novo kit de fábrica, optou-se por reutilizar as meias grená do uniforme titular. A ideia era criar uma camisa que combinasse com essas meias, que já estavam no acervo do clube. Assim, nasceu a camisa grená, inicialmente como uma solução pragmática para evitar gastos extras.
O primeiro uso oficial registrado deste uniforme grená ocorreu em 1980. A aceitação não foi imediata. Alguns torcedores puristas estranharam a ausência do verde e do branco, cores fundamentais da identidade visual do clube. No entanto, com o passar dos anos, especialmente durante a década de 1980, período em que o Fluminense conquistou títulos importantes como o Campeonato Brasileiro de 1984, a camisa grená foi ganhando espaço no coração da torcida. Ela passou a ser associada a momentos de garra e superação dentro de campo, refletindo o contexto de sua criação: nascida da necessidade, tornou-se um emblema de resistência.
O uniforme grená viveu seu auge de popularidade nos anos 1990. Em 1992, o Fluminense sagrou-se campeão da Copa do Brasil utilizando em parte de sua campanha essa vestimenta alternativa. A imagem de jogadores como Renato Gaúcho e Ézio vestindo o grená em vitórias decisivas solidificou a camisa como um símbolo de sorte e conquista para uma geração de torcedores. Apesar de ter sido gradualmente substituída por outros modelos alternativos (como os uniformes brancos ou azuis) a partir dos anos 2000, a camisa grená nunca foi esquecida. Ela retornou esporadicamente como terceiro uniforme ou em edições comemorativas, sempre sendo recebida com carinho pela torcida mais antiga, que reconhece sua origem e seu significado histórico.
Analisando este episódio, percebe-se que a história do uniforme grená do Fluminense vai muito além da estética. Ela encapsula um momento específico da gestão clubística, onde a criatividade superou a limitação orçamentária. Em um esporte cada vez mais comercial, essa narrativa resgata um tempo em que os símbolos do clube podiam nascer de soluções simples e genuínas. A camisa, que começou como um “remendo” econômico, transformou-se em um símbolo afetivo, lembrando que a identidade de um clube também é construída por suas histórias singulares, suas adaptações e a maneira como a torcida abraça essas peculiaridades. É uma curiosidade que revela como, no futebol, até as decisões mais pragmáticas podem, com o tempo, ganhar uma alma e se tornar parte indelével da tradição.
— Lance do Jogo







