
O Flamengo que quase virou clube de remo: a curiosa história da fusão com o Fluminense
O Flamengo que quase virou clube de remo: a curiosa história da fusão com o Fluminense
No vasto universo do futebol brasileiro, poucas histórias são tão fascinantes e pouco conhecidas quanto o episódio em que o Flamengo, hoje um dos maiores clubes do mundo, esteve a um passo de se fundir com seu maior rival, o Fluminense. Este capítulo quase esquecido da história do rubro-negro remonta aos primórdios do século XX, revelando um momento de incerteza que poderia ter alterado para sempre o cenário esportivo carioca e nacional.
A história se desenrola em 1911, quando o Flamengo ainda era essencialmente um clube de remo. Fundado em 1895, o Clube de Regatas do Flamengo (CRF) tinha no remo sua principal atividade esportiva, com o futebol sendo uma modalidade secundária e até mesmo vista com certa resistência por parte da diretoria e de sócios tradicionais. Naquele ano, o departamento de futebol do Flamengo enfrentava sérias dificuldades: falta de estrutura, escassez de jogadores e pouca relevância no cenário esportivo do Rio de Janeiro, então capital federal.
Foi nesse contexto que surgiu a proposta de fusão com o Fluminense Football Club, fundado em 1902 e já estabelecido como uma potência do futebol carioca. A ideia, discutida em reuniões sigilosas entre dirigentes de ambos os clubes, previa a criação de uma única agremiação que uniria a tradição náutica do Flamengo com a expertise futebolística do Fluminense. Os tricolores, por sua vez, viam na fusão uma oportunidade de fortalecer suas atividades aquáticas e ampliar sua base de sócios.
As negociações avançaram a ponto de serem discutidos detalhes práticos da união, incluindo o nome do novo clube, as cores do uniforme e a estrutura administrativa. Relatos históricos indicam que alguns dirigentes flamenguistas chegaram a considerar seriamente a proposta, especialmente aqueles mais ligados às atividades náuticas e menos entusiastas do futebol. O momento era de definição: o Flamengo poderia se tornar um clube predominantemente de remo, com o futebol como atividade secundária dentro de uma estrutura compartilhada com o Fluminense.
O que impediu que esta fusão histórica se concretizasse? A resposta está na resistência de um grupo de jovens jogadores e sócios do Flamengo, liderados por Alberto Borgerth, que defendiam com unhas e dentes a independência do departamento de futebol rubro-negro. Este grupo, apaixonado pelo esporte bretão, argumentava que o Flamengo tinha potencial para se tornar uma potência futebolística por seus próprios méritos, sem precisar se fundir com seu rival. A pressão interna foi tão intensa que a diretoria do Flamengo acabou recuando da proposta, optando por investir no fortalecimento próprio do futebol clube.
As consequências desta decisão foram monumentais. Ao rejeitar a fusão, o Flamengo não apenas preservou sua identidade, mas iniciou um processo de fortalecimento que o levaria, nas décadas seguintes, a se tornar o clube com maior número de torcedores no Brasil e uma das instituições esportivas mais reconhecidas mundialmente. O departamento de futebol, que parecia frágil em 1911, transformou-se no coração do clube, enquanto o remo, embora mantendo sua tradição, assumiu papel secundário.
Este episódio quase esquecido nos permite refletir sobre os caminhos que a história do futebol brasileiro poderia ter tomado. Imagine um Rio de Janeiro sem o Fla-Flu, sem uma das maiores rivalidades do futebol mundial, sem as conquistas continentais e mundiais do Flamengo, sem a paixão de milhões de rubro-negros espalhados pelo planeta. A fusão Flamengo-Fluminense, se concretizada, teria criado um superclube carioca, mas ao custo de apagar duas das identidades mais marcantes do esporte brasileiro.
A curiosidade histórica nos revela como decisões aparentemente menores podem alterar radicalmente o curso dos eventos. O Flamengo que hoje conhecemos – multicampeão, com estádio próprio, torcida gigantesca e projeção internacional – poderia ter sido apenas um capítulo na história de um clube de remo fusionado com seu rival. A coragem daqueles jovens em 1911 em defender a independência do futebol rubro-negro não apenas salvou a identidade do clube, mas garantiu que o futebol brasileiro tivesse uma de suas mais vibrantes e apaixonantes histórias.
— Lance do Jogo






