
O Dia em que o Vitória Conquistou o Mundo: A Invasão Rubro-Negra no Maracanã em 1972
O Dia em que o Vitória Conquistou o Mundo: A Invasão Rubro-Negra no Maracanã em 1972
No vasto universo do futebol brasileiro, repleto de glórias dos grandes centros, algumas histórias de resistência e paixão regional permanecem nas sombras, esperando para serem contadas. Uma delas, talvez a mais emblemática da relação do torcedor baiano com seu clube, ocorreu longe dos gramados da Fonte Nova, no templo máximo do futebol nacional. Em 1972, o Esporte Clube Vitória protagonizou um feito de mobilização popular que até hoje é lembrado com orgulho e espanto: a invasão rubro-negra do Maracanã durante uma decisão do Campeonato Brasileiro.
O contexto era de ebulição. O Vitória, sob o comando do técnico Mário Juliato, vivia sua melhor campanha na então recente história dos campeonatos nacionais. A equipe, que contava com ídolos como o goleiro Manga (em final de carreira, mas ainda um símbolo) e o atacante China, havia eliminado potências e chegava às semifinais do Brasileirão. O adversário era ninguém menos que o Botafogo de Rio de Janeiro, time estrelado e favorito. O primeiro jogo, em Salvador, terminou em um empate em 1 a 1, deixando a vaga para a final dependente do confronto no Rio.
Foi então que aconteceu o improvável. A torcida do Vitória, conhecida por sua ferocidade e devoção, organizou uma das maiores migrações de torcedores de um estado para outro já vistas no país até aquela data. Estimativas da época falam em mais de 10 mil rubro-negros viajando de Salvador para o Rio de Janeiro. Eles foram de todas as formas possíveis: em comboios de ônibus fretados, em caravanas de carros, e até em trens lotados. A cidade do Rio se viu tomada por uma maré rubro-negra dias antes da partida. A imprensa carioca, acostumada com as torcidas locais, se espantou com o volume e o fervor dos baianos.
No dia 17 de dezembro de 1972, o Maracanã, com um público oficial de mais de 130 mil pessoas, testemunhou uma cena surreal. Um setor inteiro do gigantesco estádio – e boa parte das gerais – estava completamente dominado pela torcida do Vitória. O clube do interior do Brasil (na visão do eixo Rio-São Paulo) havia, simbolicamente, conquistado o coração do futebol nacional por um dia. O jogo em si foi tenso e disputadíssimo. O Vitória, pressionado, segurou o 0 a 0 por grande parte do tempo, com atuações heroicas da defesa. O sonho, no entanto, foi interrompido aos 39 minutos do segundo tempo, quando o botafoguenso Dario marcou o gol da classificação do time carioca. Apesre da derrota por 1 a 0 e da eliminação, a torcida rubro-negra não se calou. Ao final da partida, ovacionou seus jogadores de pé, em uma cena de respeito e amor ao clube que comoveu até os comentaristas locais.
Este episódio vai muito além de uma simples viagem de torcida. Ele consolidou a imagem do Torcedor Rubro-Negro como um dos mais fiéis e apaixonados do Brasil, disposto a cruzar o país para apoiar seu time. Foi a prova definitiva de que o Vitória não era um clube regional, mas uma potência de paixão com alcance nacional. A Invasão do Maracanã em 1972 não garantiu um título, mas conquistou algo talvez mais duradouro: o respeito de todo o futebol brasileiro e um lugar eterno na mitologia do clube. Mostrou que, às vezes, a grandeza de um time se mede não apenas pelos troféus, mas pela dimensão da alma de sua torcida.
— Lance do Jogo







