O Dia em que o São Paulo Foi Campeão Mundial Antes do Jogo Acabar

O Dia em que o São Paulo Foi Campeão Mundial Antes do Jogo Acabar

O Dia em que o São Paulo Foi Campeão Mundial Antes do Jogo Acabar

No universo do futebol, poucos momentos são tão definitivos quanto o apito final que consagra um campeão mundial. Para o São Paulo Futebol Clube, no entanto, a conquista do primeiro título intercontinental em 1992 contra o Barcelona carrega uma peculiaridade histórica pouco difundida: o time foi oficialmente declarado campeão mundial minutos antes do término da partida, em um episódio que mistura drama esportivo, confusão regulamentar e um ato de fair play que entrou para a história.

A final do Mundial Interclubes de 1992, disputada no Estádio Nacional de Tóquio, opôs o São Paulo de Telê Santana ao Barcelona de Johan Cruyff, um dos grandes times da era do “Dream Team”. Após um empate por 1 a 1 no tempo normal, com gols de Raí e Stoichkov, a partida foi para a prorrogação. Aos 109 minutos, o atacante são-paulino Müller recebeu um lançamento, avançou em direção ao gol e foi derrubado pelo zagueiro catalão Ronald Koeman dentro da área. O árbitro argentino Juan Carlos Loustau não hesitou: pênalti para o São Paulo.

Foi neste momento que a história tomou um rumo inusitado. Raí, o capitão e cobrador designado, se preparava para a batida decisiva quando o goleiro do Barcelona, Carles Busquets, começou a reclamar veementemente com o árbitro, alegando que Müller havia simulado a falta. A discussão se prolongou, com jogadores de ambos os times se envolvendo. Em meio ao tumulto, o quarto árbitro, o uruguaio Ernesto Filippi, consultou a súmula e percebeu um erro crucial: o Barcelona já havia feito todas as três substituições permitidas, mas o jogador Julio Salinas, que havia saído mais cedo, não foi registrado oficialmente. Tecnicamente, os catalães estavam com um jogador a mais em campo.

Segundo o regulamento vigente da FIFA para a competição, isso configurava uma infração passível de perda do jogo por W.O. (walkover). O quarto árbitro informou o árbitro principal Loustau sobre a irregularidade. Em uma decisão que paralisou o estádio, Loustau, após breve consulta, decretou o fim da partida e declarou o São Paulo como campeão mundial, sem a necessidade da cobrança do pênalti. O placar foi homologado como 2 a 1 para o tricolor paulista (considerando o gol da prorrogação que seria o pênalti), mas o apito final soou, na prática, minutos antes do previsto.

O detalhe mais fascinante, porém, veio em seguida. Telê Santana, técnico do São Paulo, conhecido por seu cavalheirismo e respeito ao esporte, aproximou-se do árbitro e dos dirigentes do Barcelona. Ele argumentou que o título deveria ser decidido dentro das quatro linhas, e não por uma falha burocrática. Após rápidas negociações, e com a anuência da FIFA, decidiu-se que o pênalti seria cobrado. Raí, sob imensa pressão, converteu. Só então, com o placar em 2 a 1, o jogo foi encerrado de fato e o São Paulo sagrou-se campeão.

Este episódio revela aspectos fundamentais daquele time e da sua filosofia. A atitude de Telê Santana, priorizando a disputa esportiva limpa, elevou o respeito pelo clube no cenário internacional. Curiosamente, muitos torcedores e até mesmo jogadores da época só foram tomar conhecimento completo dos bastidores burocráticos anos depois, através de reportagens e depoimentos de envolvidos, como o próprio quarto árbitro Filippi. O “pênalti que não precisava ser cobrado” tornou-se uma das grandes histórias do futebol, mostrando que, às vezes, a glória pode ser antecipada por uma falha no protocolo, mas a grandeza está em como se lida com ela.

A conquista de 1992, portanto, não foi apenas a primeira de três mundiais do São Paulo. Foi uma vitória marcada por um drama administrativo sem precedentes em finais de tal magnitude e por um gesto de fair play que se tornou lendário. Um capítulo que prova que, nos arquivos do futebol, até os títulos mais claros podem guardar nuances e reviravoltas invisíveis para a maioria dos espectadores, mas que fazem parte da rica tapeçaria histórica de um clube gigante.

— Lance do Jogo