
O Dia em que o Mirassol Foi Campeão Paulista... em 1936? A Curiosa História do Troféu Perdido e da Identidade Recuperada
O Dia em que o Mirassol Foi Campeão Paulista… em 1936? A Curiosa História do Troféu Perdido e da Identidade Recuperada
No universo do futebol brasileiro, repleto de gigantes e histórias consagradas, repousam narrativas esquecidas que, quando trazidas à tona, revelam facetas surpreendentes da nossa rica tapeçaria esportiva. O Mirassol Futebol Clube, time do interior paulista cuja ascensão nacional é relativamente recente, guarda em seus arquivos uma dessas preciosidades: uma conquista oficial estadual datada de 1936, décadas antes de seu “renascimento” moderno, cujo troféu físico simplesmente desapareceu, tornando-se uma lenda local e um capítulo pouco conhecido da história do futebol paulista.
A história começa com uma importante distinção: o Mirassol Futebol Clube atual, fundado em 1925, não é a mesma agremiação que hoje brilha na Série B do Campeonato Brasileiro. O clube original encerrou suas atividades em 1964. O time que conhecemos hoje nasceu em 1975, fruto de uma fusão entre o antigo Mirassol e o Clube Atlético Mirassolense, adotando o nome e as cores tradicionais, mas sendo, juridicamente, uma nova entidade. No entanto, essa nova instituição herdou, por direito e memória, os feitos do clube original. E entre esses feitos, está um título singular.
Em 1936, a Federação Paulista de Futebol organizava, paralelamente ao campeonato principal das grandes forças da capital, competições específicas para os clubes do interior. O Mirassol, então uma promissora agremiação da região de São José do Rio Preto, inscreveu-se e disputou o Campeonato Paulista do Interior daquele ano. Após uma campanha destacada, a equipe alviverde sagrou-se campeã da competição, um feito monumental para uma cidade do interior naquela época. A conquista foi registrada em atas, reconhecida pela federação e rendeu ao clube um troféu, símbolo material da glória alcançada.
O desenvolvimento desta curiosidade gira em torno do destino desse troféu. Com o passar dos anos, as mudanças de sede do clube original, seu eventual fechamento e o processo de fusão que deu origem ao novo Mirassol, o cobiçado troféu de 1936 se perdeu. Não há registro de ter sido derretido, vendido ou intencionalmente descartado. Ele simplesmente sumiu, tornando-se uma peça fantasma no museu imaginário do clube. Gerações de dirigentes e torcedores mais antigos falavam dele, mas ninguém conseguia apontar seu paradeiro. A existência do título, no entanto, nunca foi posta em dúvida, constando em documentos históricos da FPF e em registros locais.
A busca por esse troféu e a reafirmação dessa história tornaram-se, eles mesmos, parte do folclore do Mirassol. A recuperação da memória desse título foi um processo lento, impulsionado por historiadores esportivos locais e por uma diretoria do clube moderno interessada em resgatar suas raízes. Pesquisas em arquivos da Federação Paulista e em jornais da época da década de 1930 confirmaram não apenas a realização do campeonato, mas a lista completa de participantes e a proclamação do Mirassol como campeão. Esse trabalho meticuloso foi crucial para reinserir oficialmente o título de 1936 na galeria de conquistas do Mirassol Futebol Clube, legitimando uma história que corria o risco de ser esquecida.
Este episódio vai muito além da simples perda de um objeto. Ele fala sobre identidade, continuidade e memória no futebol. O Mirassol de hoje, ao abraçar o título de 1936 como seu, estabelece um elo tangível com sua tradição mais remota, argumentando que, mesmo com uma descontinuidade jurídica, há uma linha ininterrupta de representação da cidade e de sua paixão futebolística. A curiosidade serve como um lembrete poderoso de que a história do futebol paulista não se escreveu apenas no Pacaembu ou no Morumbi, mas também em campos de terra batida no interior, onde clubes como o Mirassol já escreviam seus nomes na história quase um século atrás.
O desaparecimento do troféu físico, paradoxalmente, acabou por dar à conquista uma aura quase mítica. Ele se transformou no “Santo Graal” mirassolense, um símbolo de uma era pioneira cuja materialidade se esvaneceu, mas cujo significado foi reforçado pela busca e pela reafirmação histórica. Hoje, quando o Mirassol enfrenta grandes clubes nacionais, carrega consigo não apenas a força de seu futebol contemporâneo, mas também o peso simbólico de ser um campeão paulista desde 1936, mesmo que o troféu que o prove ainda espere, em algum sótão ou depósito desconhecido, para ser reencontrado.
— Lance do Jogo







