O Cruzeiro e a Taça Libertadores de 1976: A Conquista que Quase Não Saiu do Papel

O Cruzeiro e a Taça Libertadores de 1976: A Conquista que Quase Não Saiu do Papel

O Cruzeiro e a Taça Libertadores de 1976: A Conquista que Quase Não Saiu do Papel

Na história gloriosa do Cruzeiro Esporte Clube, a conquista da Taça Libertadores da América em 1976 é um marco inquestionável. No entanto, por trás do título que consagrou a equipe mineira como a primeira do interior do Brasil a vencer o torneio continental, existe uma curiosidade pouco conhecida e decisiva: a participação do Cruzeiro naquela edição esteve por um fio e dependeu de uma interpretação regulamentar e de uma virada esportiva dramática.

O ano de 1975 havia terminado com uma decepção para a Raposa. O time, que tinha uma geração talentosa com jogadores como Nelinho, Palhinha, Joãozinho e o lendário goleiro Raul Plassmann, foi eliminado na semifinal do Campeonato Brasileiro pelo Internacional. Segundo o regulamento vigente para a Libertadores de 1976, apenas o campeão brasileiro de 1975 (o Internacional) teria vaga direta. A segunda vaga brasileira seria destinada ao campeão da Taça de Prata, uma competição paralela daquele ano. O Cruzeiro não era o campeão de nada e, aparentemente, ficaria de fora.

Foi então que entrou em cena uma cláusula regulamentar da Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL). A entidade previa que, caso o campeão da Libertadores do ano anterior (nesse caso, o Independiente, da Argentina) também conquistasse seu campeonato nacional, uma vaga extra seria liberada para a associação do país do atual detentor do título. O Independiente de fato venceu o Metropolitano de 1975. Isso abriu uma vaga extra para o Brasil na Libertadores de 1976. A pergunta era: quem a preencheria?

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), antecessora da CBF, precisou decidir. A vaga não era da Taça de Prata, e sim uma vaga “extra”. Após debates, a CBD optou por indicar o vice-campeão brasileiro de 1975. E quem havia perdido a final justamente para o Internacional? O Cruzeiro. Foi assim, por uma janela regulamentar inesperada, que a Raposa herdou a vaga que a levaria à glória eterna.

Mas a história não para aí. Mesmo dentro da competição, o caminho foi de suspense. Na fase de grupos, o Cruzeiro enfrentou o próprio Independiente e o River Plate. Em um dos jogos mais emblemáticos da história do clube, já nas quartas de final, a equipe mineira enfrentou o poderoso Peñarol, no Uruguai. Perdendo por 3 a 1 no placar agregado, o Cruzeiro precisava de uma vitória por dois gols de diferença no Mineirão para forçar uma decisão por pênaltis. O time reagiu com garra e venceu por 2 a 0, com gols de Nelinho e Eduardo, levando a decisão para os pênaltis, onde Raul Plassmann brilhou e se tornou herói ao defender duas cobranças, garantindo a classificação.

A campanha, portanto, foi construída sobre um duplo milagre: primeiro, o burocrático, que colocou o clube na competição; segundo, o esportivo, com reações épicas dentro de campo. A finalíssima contra o River Plate, vencida por 3 a 2 no agregado, coroou uma trajetória que começou à sombra da não classificação.

Este episódio revela como os títulos históricos são frequentemente entrelaçados com detalhes obscuros e decisões de bastidores. A Libertadores de 1976 do Cruzeiro não foi apenas uma conquista de futebol vistoso comandado por Zezé Moreira, mas também um triunfo da persistência e de estar no lugar certo, na hora certa, graças a uma nuance do regulamento. É um lembrete de que, no esporte, a grandeza às vezes surge por caminhos inesperados.

— Lance do Jogo