O Cruzeiro e a Taça Libertadores de 1976: A Conquista que Quase Não Saiu do Papel

O Cruzeiro e a Taça Libertadores de 1976: A Conquista que Quase Não Saiu do Papel

O Cruzeiro e a Taça Libertadores de 1976: A Conquista que Quase Não Saiu do Papel

Na história gloriosa do Cruzeiro Esporte Clube, a conquista da Taça Libertadores da América de 1976 se ergue como um dos momentos mais altos. No entanto, por trás da glória continental, esconde-se uma curiosidade histórica pouco conhecida e decisiva: o título por pouco não foi disputado devido a uma crise financeira e política que ameaçou a participação do clube no torneio. Enquanto a nação celebrava o bicampeonato brasileiro de 1975, a diretoria cruzeirense enfrentava um dilema monumental que poderia ter apagado da história uma de suas maiores conquistas.

O ano de 1975 foi de consagração nacional para o Cruzeiro. Sob o comando do técnico Zezé Moreira e com um elenco estrelado por nomes como Nelinho, Palhinha, Joãozinho e o artilheiro Roberto Batata, a Raposa conquistou seu segundo Campeonato Brasileiro. A vitória na final contra o Internacional garantiu não apenas o troféu, mas também a vaga na edição de 1976 da Libertadores. No entanto, o clima de euforia escondia uma realidade preocupante nos bastidores. O clube enfrentava uma grave crise financeira, com dívidas acumuladas e dificuldades para honrar compromissos. A participação na competição continental, que exigia vultosos investimentos em viagens e logística para jogos por toda a América do Sul, era vista por parte da diretoria como um fardo insustentável.

Os detalhes dessa crise são fundamentais para entender o risco real que pairou sobre a campanha histórica:

  • Contexto Financeiro: Após os gastos com as campanhas nacionais, o Cruzeiro tinha recursos escassos. A Libertadores representava custos elevadíssimos com passagens aéreas, hospedagem e alimentação para uma comitiva grande em viagens internacionais longas.
  • Debate Interno: Havia uma facção dentro da diretoria que defendia a renúncia à vaga na Libertadores. O argumento era pragmático: melhor focar em sanar as finanças e disputar torneios nacionais do que arriscar uma campanha continental que poderia afundar ainda mais o clube em dívidas.
  • O Papel Decisivo de Zezé Moreira: O técnico, um dos mais respeitados do país, foi uma voz crucial contra a desistência. Ele argumentou que a equipe, no auge de sua forma, tinha condições reais de brigar pelo título e que a conquista traria prestígio e receitas que compensariam os investimentos. Sua influência pesou na decisão final.
  • A Virada: Após intensas reuniões, prevaleceu a visão de que abrir mão da Libertadores seria um erro histórico irreparável. A diretoria, com grande esforço, conseguiu garantir o financiamento mínimo necessário para a empreitada, muitas vezes contando com o apoio de empresários e torcedores influentes.

Superado o obstáculo burocrático e financeiro, o Cruzeiro embarcou na campanha que o consagraria. No grupo com Deportivo Galicia (Venezuela) e Alianza Lima (Peru), a Raposa avançou com autoridade. Nas semifinais, um clássico mineiro continental contra o Atlético-MG, vencido nos pênaltis após um empate agregado, mostrou a fibra da equipe. A final, contra o poderoso River Plate da Argentina, foi um épico. Após um empate em 2 a 2 em Buenos Aires e uma vitória por 1 a 0 no Mineirão, com gol de Nelinho de falta, o Cruzeiro sagrou-se campeão da América pela primeira vez.

A ironia histórica é profunda. A competição que esteve tão perto de ser abandonada por questões administrativas tornou-se o ápice da trajetória do clube até então. A Conquista da Libertadores de 1976 não só eternizou jogadores como Palhinha e Joãozinho, como também validou a coragem da decisão de enfrentar a crise e seguir em frente. O título gerou receitas significativas com premiações e patrocínios, ajudando a aliviar a situação financeira que tanto ameaçara a participação. Mais do que um troféu, a campanha simboliza a resistência institucional do Cruzeiro, mostrando que, às vezes, os maiores feitos nascem das decisões mais difíceis. Se a visão curta tivesse prevalecido, o hino “Domingo Eu Vou ao Mineirão” não celebraria um campeão continental, e uma página essencial da história do futebol brasileiro estaria em branco.

— Lance do Jogo